SINAIS DOS TEMPOS – Por José Fernando Magalhães (6)

 

 

SERVIDORES À MESA

 

Vivemos tempos de clarividência selectiva. A contemporânea crónica da sustentabilidade, apresenta-se amiúde, como um paradoxo de requintada hipocrisia.

Diz-se, com toda a seriedade académica e um fervor quase missionário, que o futuro da humanidade passa pela Inteligência Artificial, o novo farol da evolução humana. E quem somos nós para contrariar o futuro, esse senhor sempre tão apressado e raramente convidado? A IA, essa entidade etérea que habita servidores em armazéns climatizados, promete resolver os grandes dilemas da humanidade, desde a escolha do próximo filme até à redacção de tratados filosóficos. Mas há um pequeno detalhe que parece escapar aos arautos da inovação; a IA consome energia. Muita. Quase sempre mais do que ousam confessar os seus promotores. E esse consumo energético vastíssimo, por sua vez, gera calor. E o calor, como qualquer mortal que já tenha tentado dormir numa cálida noite de Agosto, precisa de ser combatido com ar condicionado.

Ora, o ar condicionado, esse herói silencioso dos escritórios, dos centros de dados e dos salões onde se realizam plenários e onde se decidem as vidas de todos nós, não funciona a “caroços de azeitona”. Funciona a electricidade, e essa, por sua vez, é frequentemente gerada por processos que emitem dióxido de carbono. Sim, CO₂, esse vilão que, segundo as directrizes vigentes, é o responsável por tudo, desde o degelo das calotes polares até à má disposição das segundas-feiras.

Mas não temais, ó leitores esclarecidos! A solução está à vista. Não passa por reduzir o número de servidores, nem por repensar a arquitectura deste sistema e a sua voracidade energética. Não. A solução iluminada, dizem-nos, é declarar guerra às vacas. Erradicá-las em nome da salvação global. Sim, as vacas. Essas criaturas ruminantes, que no seu sossego campestre, são elevadas ao estatuto de culpadas de crimes hediondos contra o clima, e que, ao que parece, conspiram contra o planeta com os seus flatos metanoicos e a sua insistência em existir. A pecuária, outrora símbolo de civilização e sustento, tornou-se agora o bode expiatório da crise climática. Assim, e como se não bastasse, somos convidados, não, instados, segundo a narrativa vigente e sem grandes escrúpulos, a continuar a emitir gases através da nossa ânsia tecnológica, e a substituir o bife por uma fatia de proteína sintética, cuidadosamente moldada em laboratório por técnicos de bata branca e consciência ecológica.

Nas partes do mundo mais “evoluídas”, já se pratica esta alquimia alimentar. O hambúrguer de laboratório é servido com orgulho, acompanhado por batatas fritas de batata-doce orgânica e um copo de água filtrada por inteligência artificial. Tudo isto, claro, em nome da sustentabilidade. Porque, como bem sabemos, é perfeitamente aceitável desmatar florestas inteiras para instalar painéis solares ligados a servidores que alimentam algoritmos que nos dizem que devemos comer menos carne, e em contrapartida nos oferecem um simulacro proteico, travestido de epifania da modernidade. Ironia, chamam-lhe alguns. Contradição, diria o bom senso. Mas não se fala disso. Fala-se de progresso. E a quem serve esta narrativa tão convenientemente selectiva?

E assim seguimos, num mundo onde a IA nos ajuda a escrever poemas sobre a natureza enquanto contribui para a sua destruição, e onde o ar condicionado que refrigera os cérebros digitais aquece o planeta que os humanos ainda habitam. Um mundo onde se salva o ambiente acabando com as vacas, mas se mantêm os servidores.

No fim de contas, é a sátira perfeita; pensar fora da caixa é óptimo, desde que a caixa tenha ar condicionado.

 

 

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